Roberta Sá: Precisamos exercitar nossa escuta, sobretudo de artistas novos

20.10.2019 - 14:10


Entrevistas

Rodrigo Cardoso Ramos

Natural da ensolarada Natal, capital do Rio Grande do Norte, Roberta Sá largou a alcunha de promessa, tornando-se um dos nomes mais importantes do atual cenário da música popular brasileira. Dona de sua própria carreira, como gosta de acentuar, ela está na estrada com a turnê de seu mais recente álbum, “Giro”, fruto da parceria com o dínamo Gilberto Gil.  Entre idas e vindas, ela aproveitou uma brecha em sua agenda concorrida e concedeu uma entrevista especial antes do seu show em Florianópolis, realizado no último dia 4 de outubro, durante o TUM Sound Festival, o mais importante evento de música, empreendedorismo e inovação de Santa Catarina. No bate papo ela falou sobre Floripa, sua parceria com Gil, cena independente e as demandas de populações historicamente marginalizadas. Confira!

Roberta Sá foi uma das protagonistas do TUM Sound Festival, em Florianópolis (Crédito: Gonden Fonseca)

– Quais suas lembranças de Florianópolis? E qual tua expectativa para o show aqui, durante o Tum Sound Festival?

Roberta: Já fiz shows em Floripa algumas vezes, num teatro lindo, com camarim muito carinhoso, com uma equipe que sempre me recebeu bem. Sempre fui muito bem recebida pelo público de Floripa. É uma cidade linda, solar. Vai ser lindo chegar com o meu “Giro” no Tum Sound Festival.

– O que seus fãs podem esperar do show oriundo do seu último trabalho, o “Giro”?

Roberta: O show é baseado nas canções do álbum “Giro”, com alguns clássicos do Gil (Gilberto), como “Tempo Rei”, por exemplo. Achei uma canção necessária para os dias de hoje, voltar a falar aquelas palavras, assim como abrir a porta da parceria do Dominguinhos com o Gil, que fala: “Que o bom da vida vai prosseguir”. Acho essa frase muito forte para os dias de hoje.

– Você poderia comentar sobre o processo de criação do álbum “Giro”?

Cantora potiguar ofereceu ao público de Florianópolis um show recheado de novidades oriundas de seu mais recente trabalho “Giro”, fruto da parceria com Gilberto Gil (Crédito: Golden Fonseca)

Roberta: Foi um álbum que levou dois anos para ser realizado, fruto da parceria com o Gil. A gente fez um esquema de quatro em quatro músicas. Gravamos todas as bases e depois fomos fazer as coisas complementares, como corda e sopros, e só depois disso é que fui fazer a voz. O Gil participou de todo o processo criativo. Ele estava no estúdio com a gente, na banda de base, tocando todos os violões. Então, foi muito baseado no trabalho dele, no violão dele.

– O Tum é um festival de música, mas também é evento voltado ao fomento de negócios no segmento fonográfico. Muitos aqui estarão se reunindo pela primeira vez em busca de experiências e visibilidade. Quais os conselhos você poderia passar, sobretudo para uma garotada que está buscando espaço, vindos da cena independente?

Roberta: Eu acho que a cena independente está muito fortalecida e tenho visto ultimamente que as carreiras que têm prosperado são justamente as carreiras com uma pegada administrativa muito forte. Se eu estivesse começando hoje, sem dúvida nenhuma, arriscaria em novos formatos. Novos formatos de lançamento. Eu acho que hoje em dia não é preciso lançar um disco inteiro. Você pode lançar em diversas plataformas. Você não precisa mais de uma grande gravadora para que tenha uma carreira. Saber que tipo de carreira você quer é o primeiro passo também para que as coisas comecem a caminhar.

– Vivemos um momento único, apesar das adversidades em que o mundo nos apresenta, especialmente no espectro comportamental. A música, as artes, acabam por tornar-se um instrumento de resistência, sobretudo para artistas negros, mulheres, periféricos e LGBT+?

Roberta: Sem dúvida nenhuma a música é um instrumento para artistas negros, para as mulheres, para o segmento LGBT. Música e arte sempre foram instrumentos de questionamento, de auto conhecimento do ser humano. Acho de imensa importância a gente saber ouvir o que cada um desses artistas estão propondo. Mais do que nunca precisamos exercitar nossa escuta, sobretudo de artistas novos. Estou muito conectada com o que está acontecendo agora, tentando entender de onde aquele artista vem, o que ele tá trazendo no discurso. Isso é muito importante para mim. Estamos com uma riqueza muito grande e importante neste momento.

Roberta Sá durante show em Florianópolis, no último dia 4 de outubro (Crédito: Golden Fonseca)

– Como você se insere neste processo?

Roberta: Eu comecei a minha carreira num momento em que as gravadoras estavam perdidas, tava no começo do streaming ainda, ninguém sabia direito no que ia dar.  Não que se saiba hoje em dia (risos). Eu entendo o mercado reagindo de forma positiva e muita gente perdida ainda. Eu sempre briguei para que eu fosse dona de meus fonogramas, que eu fosse dona do meu catálogo. Isso sempre foi importante pra mim, que eu tenha controle do meu maior patrimônio, do que eu fiz, dos meus discos, das minhas obras. Já vivi em ambientes machistas, mas acredito que está melhorando. Tenho certeza que passei por momentos que só pelo fato em ser mulher, eu tive que sair. Já me vi em situações de preconceitos. De homens querendo me diminuir, pelo fato de eu ser cantora, falando no mercado de trabalho. As mulheres estão se unindo. Estão com muita força e vejo essa força também na cena LGBT, os negros buscando e conquistando o seu merecido protagonismo na cena musical. Acho que tá um momento muito rico especial.

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